A Toca dos Chapéus

A Toca dos Chapéus

por Gabriel Edgar

“Era uma vez um vilarejo chamado Toca dos Chapéus. Lá moravam quase todos os personagens de contos de fadas que ainda não tivessem sido movidos para o asilo, dentre eles Rapunzel, Branca de Neve, o Príncipe Sapo e os Três Porquinhos. Os cidadãos toqueiros acordavam com o cacarejar do galo e trabalhavam duro do raiar do dia até a hora de voltar para cama.

As ruas de terra batida estavam sempre atoladas de gente, mesmo nos dias de chuva. Quando o céu ficava negro e raios cruzavam as nuvens as princesas e damas corriam para fora para um bom banho de lama.

As crianças brincavam e ajudavam nas tarefas de casa. Os homens trabalhavam para colocar comida na mesa. Lá havia um armeiro que cuidava das armaduras dos muitos príncipes, um cozinheiro, sempre com uma colher de pau enfiada no avental e balas carameladas nos bolsos. Havia ainda o ferreiro, o construtor, o fazendeiro, e é claro que um Chapeleiro.

Assim que nasciam, as crianças eram levadas por seus pais ao Chapeleiro, para que este fizesse um chapeuzinho sob medida para o recém-nascido.

O senhor Chapeleiro da Toca dos Chapéus era uma figura mítica. Conhecia todos da cidade pelo nome, e sabia exatamente o tamanho das cabecinhas que teria de vestir num prazo de 10 anos – ou seja, das crianças que ainda nem haviam nascido.

A tradição dos chapéus movia festivais e histórias. Os mais pobres tinham um chapéu para cada estação, e os ricos um para cada dia do ano. Quando a virada se aproximava, o Chapeleiro organizava uma enorme competição em que cada um deveria produzir seu próprio chapéu, sendo o Chapeleiro o jurado.

As crianças e adultos Toqueiros tinham como distração não apenas a grande competição, que acontecia uma vez ao ano e movia a vila inteira. Eles também amavam histórias contadas direto da boca! Toda noite os Toqueiros deixavam seus afazeres às seis em ponto para irem se reunir em volta de uma enorme fogueira, que era alimentada pelos chapéus velhos dos anos passados. Os baldes de tirar água do poço viravam assentos improvisados, e todos os acomodados apuravam os ouvidos para ouvir o que Joseph, o contador de histórias local, tinha para dizer naquela noite.

Todo tipo de acontecimento poderia acabar na boca dele e parar em uma noite de contos. Por isso todo o cuidado era pouco. Infelizmente para uns e felizmente para outros, Joseph sempre sabia de tudo que acontecia em sua vila, o que fazia com que todos ficassem até a última palavra para ouvir as fofocas sobre os vizinhos transformadas em historinhas fantásticas.

A noite de histórias era sempre dividida em dois horários: primeiro Joseph tecia enredos sobre monstros, homens que sequestravam as crianças que não estivessem na cama na hora de dormir, ogros que palitavam os dentes com as costelas dos malcriados, bruxas que roubavam os dentes das suas bocas se os pequenos comessem doces demais, etc.

Quando a primeira parte da noite terminava, os pais enxotavam seus filhos para casa e sentavam-se para a segunda parte da noite: estórias para os adultos. Muito mais que fofocas, elas eram um informativo precioso sobre ladrões noturnos de galinhas, inovações de vilas próximas e projeções para colheitas.

Joseph sabia exatamente quem eram, na vida real, os integrantes das coisas que ele contava, mas nunca dizia nomes para não incriminar ninguém. Os próprios habitantes da vila recebiam a tarefa de descobrir o que suas charadas e histórias lhes queriam dizer e resolver por si mesmos.

As mulheres muito se interessavam nisso, mas mais pelas fofocas que pelas notícias. Elas roíam os dedos esperando pela parte em que ouviriam sobre o que a vizinha comprara de novo, como ela estava fora de moda e feia usando um chapéu que já deveria ter ido parar na fogueira há séculos, etc. Elas riam que se acabavam, mesmo as que sabiam que a estória era sobre elas – tudo para disfarçar e não acabar a sua reputação.

Não era só esse tipo de coisa que se revelava nas noites de Queima de Chapéus. Inclusive, algumas intrigas foram “resolvidas” por Joseph de forma que antes não teriam sido. Um exemplo foi O Roubo das Maças. Moravam entre os Toqueiros três irmãos porquinho donos de uma macieira reconhecida por suas frutas explodiam na boca como um presente dos céus. Há muito tempo atrás cada um tinha sua casa, mas dois dos irmãos perderam as casinhas e foram morar com o mais velho dos três. Contavam os porquinhos que haviam perdido suas casas que um lobo muito mau apareceu e assoprou suas casinhas, com paredes e teto, tudo junto para longe. Isso é o que eles dizem. Por levarem fama de muito mentirosos, o que circula na vila são boatos de que os dois irmãos mais velhos perderam as casinhas para o jogo – sim, eles jogavam poker religiosamente todos os fins de semana antes de entrarem para o JPA. O fato pôs a prova o dito Roubo das Maçãs. Os porquinhos disseram que certo dia, ao chegarem em casa, todas as frutas de macieira tinham sumido!

Um irmão acusava o outro de ter comido todas sozinho. “Pois diga, sua raposa matreira, ontem mesmo você conseguia passar pela porta de casa como todos nós, mas agora essa sua barriga rosa só entra de lado! Explique-se, explique-se”!

Era oinc pra lá, oinc pra cá! Joseph decidiu pôr um fim a história, dizendo que as maçãs haviam apodrecido, caído e rolado morro abaixo até o rio por causa do bafo que os três irmãos exalavam de manhã cedo.

Eu acredito que na verdade um dos irmãos tenha cedido ao vício e trocado as maçãs por um baralho novo, já que assim que entravam para o Jogadores de Poker Anônimos, o JPA, os integrantes tinham o compromisso de se desfazerem de seus vícios.

Quando ficamos mais velhas, eu e as crianças deixamos as histórias e brincadeiras para os mais novos. Já estava em tempo de nos casarmos e darmos prosseguimento a família! Os filhos dos sete anões estavam para se casar, felizes da vida por encontrarem alguém do seu tamanho. Até o Pequeno Polegar havia arrumado uma noiva exemplar!

Quanto a mim, eu havia sido cortejada. Recebi flores, frutas exóticas e fichas de poker, mas nada daquilo foi capaz de roubar meu coração.

Havia, porém, um garoto que tocava acordeão. Ele era o sétimo irmão da família, e parecia estar envolto em uma densa névoa de segredos. Era estranho pensar que eu nunca havia o visto com meninas da vila, muito menos brincando com os garotos.

Depois de certa idade ele parou de ir à fogueira ouvir histórias, e eu só conseguia vê-lo de dia e de longe, já que meus pais não deixavam que eu me aproximasse. E não eram só os meus. Qualquer criança que falasse ou encostasse nele sabia que seria castigada ao chegar em casa. Por que faziam isso com o coitado? Nenhuma criança sabia e os adultos não estava nem um pouco à vontade para nos dizer.

Papai ficava muito brabo e mamãe girava seus cabelos de 15 metros no ar como um chicote só de ouvir o nome do garoto.

Infelizmente ele era o único menino que chamava minha atenção! Decidi que precisava falar com ele nem que fosse para dizer um simples “olá”, e como planejado a hora tão esperada aconteceu não muitos dias mais tarde. Enquanto o garoto retirava água do poço da vila eu o cumprimentei e nossos olhares se cruzaram. Ele foi muito gentil e sorriu de volta, mas não passou disso. Talvez ele mesmo se vetasse de falar com outras pessoas.

Voltamos aos nossos afazeres e não comentei o encontro com ninguém, mas mamãe acabou descobrindo e a consequência foi doída. Não imaginava que cabelo trançado fosse uma arma tão eficiente; doía como couro e não deixava marca nenhuma! Meu padrasto, ao invés de ajudar e amenizar as coisas simplesmente sentava-se à mesa e punha-se a dar linguaradas nas moscas que desafortunadamente passavam por ele.

Era uma pena que meu pai tivesse se separado da mamãe; eu gostava muito mais dele e sentia saudades, mas mamãe reclamava a toda hora que ele parecia não enxergar as coisas que aconteciam bem em frente ao nariz dele. “Era um insensível” virou o bordão dela.

Por sua vez meu padrasto era um completo idiota. Antes de ser casado ele era um sapo que acabou persuadindo uma princesa e beijá-lo. Os lábios da moça o transformaram em um homem, mas ele era tão vazio que algumas semanas depois de casados eles se separaram, e mamãe assumiu o lugar da outra.

A surra de bate-cabelo da mamãe não foi capaz de me pôr juízo na cabeça. Novamente planejei um encontro secreto. Chamei Sol, o garoto misterioso, quando nos cruzamos na biblioteca. Ele foi cordial outra vez, e mais uma vez mamãe descobriu. Fiquei aliviada, já que os cabelos dela estavam pendurados no varal secando – ela não era louca de sujá-los novamente e ficar mais três dias lavando seus imaculados fios dourados. Para minha decepção, meu padrasto assumiu o posto de carrasco.

Não precisei matutar muito para chegar à conclusão de que os idiotas dos passarinhos da vizinha, Branca de Neve, é que estavam falando dos encontros para ela, que por sua vez tivera o prazer de informar minha mãe.

Depois de duas surras passei a ser mais cuidadosa, e nunca mais falei com Sol em lugar aberto. Pareceu dar certo!

Mamãe não precisou mais fazer tranças e meu padrasto voltou a comer suas moscas.

Eu acabei gostando do misterioso Sol e ele de mim; nos apaixonamos. A partir de então tudo começou a dar errado. Sol se tornou obsessivo, brigava com meus amigos, tentava falar comigo em locais públicos. Ele arranjou encrenca com meus pais, e eles o proibiram explicitamente de falar comigo e eu de falar com ele.

Foi naquela época negra que o Corcunda e seu filho se mudaram para a Toca dos Chapéus. Eles abriram uma loja chamada Perfumaria Notredame, e boatos diziam que ambos eram autênticos franceses. O único porém era eles não conhecerem a tradição da fogueira e dos chapéus, e serem muito, mas muito feios. Sorte do filho por não ser corcunda como o pai. Eles eram pessoas muito legais e engraçadas, apesar da serem horrendos.

Assim como eu o filho do corcunda gastava horas e horas dentro da biblioteca imaginando como seria sua vida dentro dos livros. Meses se passaram até nos tornarmos muito amigos. Então, certo dia contei a ele sobre Sol. Fiquei esperando uma reação pouco feliz, mas o filho do corcunda não entendeu minha aflição. Foi apenas quando contei a ele toda a história em volta de Sol que ele soube me explicar o que estava acontecendo.

O filho do Corcunda se tornou meu conselheiro; mais para frente uma paixão, apesar de ser claramente muito feio, o que mostrou a mim e a todos da vila, principalmente Sol, que não é a beleza que determinada como a roda da sorte gira no mundo. O filho do Boticário falava sobre tudo comigo, e nós nunca julgávamos um ao outro”.

— Vovó, mas e o Sol? Você não era apaixonada por ele?

— Verdade seja dita, eu era. Mas descobri que aquela paixão era apenas o gosto pelo perigo, pelo desconhecido. Eu era muito aventureira quando mais nova. O filho do Corcunda me mostrou o que era confiança. Sol me mostrou o que era o ódio.

— Então você parou de falar com ele para sempre, como todos faziam?

— Não. Eu tentaria se não achasse isso desumano demais. Sol não falava com ninguém, apenas com seu acordeão. Pensei que ter uma amiga seria bom para ele, mas estava enganada.

“O filho do corcunda revelou o que sol era, e não era uma coisa boa. Pessoas como Sol não gostavam, não podiam ser decepcionadas. Pessoas como ele não podiam se apaixonar, por um motivo muito simples.

Sol era um lobisomem, e lobisomens odeiam se decepcionar. Ao tentar permanecer perto de Sol apenas como amiga, despertei nele uma fúria sem limites. Já não bastando o quanto eu estava assustada, numa noite em que voltava para casa da Queima de Chapéus ouvi um som estranho vindo de uma ruazinha. Decidi investigar, e qual o meu espanto quando vi quem era, ou melhor, o quê.

Sol estava em pé, seu acordeão caído ao chão. De longe, achei que ele estivesse tremendo com frio. Cogitei avançar e ver o que se passava, mas um gemido agudo que veio dele me fez hesitar. O garoto arqueou as costas, ganiu como um cachorro e prostrou-se no chão.

Suas mãos escorregaram na terra mole, os pés afundaram com força. A camisa de Sol fez um raaaasg que me pareceu dez vezes mais alto. Suas costas projetaram-se para fora da abertura. Pelos ralos surgiram e espalharam-se, crescendo como a crina de um cavalo. Eram fortes e grossos, emaranhados a meia luz da lua. A transformação era medonha. Não sentia minhas pernas, meu corpo ficava gelado e a sombra do garoto-lobisomem só crescia e crescia até triplicar de tamanho. Em um piscar de olhos não havia mais nada lá.

Sol transformara-se em lobisomem bem diante de meus olhos.

Fiquei aterrorizada. Corri até a casa do Boticário contar tudo ao seu filho. O dia seguinte amanheceu trazendo um cheiro diferente. Era o sangue de dez ovelhas destroçadas na noite passada. Eu tinha libertado a fúria daquele animal em pele de homem. Em menos de quatro meses mais três ataques se sucederam. As pessoas me olhavam torto, mamãe chorava dia e noite. Meu padrasto continuava comendo suas moscas.

A única saída seria me darem a ele, ao Sol, mas isso era inadmissível. Fugi para preservar a segurança das pessoas do vilarejo e a minha própria antes que a ideia de me dar ao lobisomem batesse na cabeça de alguém. O filho do corcunda foi comigo. Escapamos na calada da noite sem avisar nossos pais nem amigos, carregando conosco alguns mantimentos, roupas e um machado.

Embrenhados na floresta caminhamos por horas e horas, e quando a noite chegou novamente, subimos em uma grande árvore para comer e dormir. Sol nos seguiu e perseguiu por dias a fio, e muitas noites se passaram assim até percebermos que Sol não iria desistir. Dessa forma, tivemos que sobreviver nas árvores sem descer por mais de um ano, e as posições que tinham que adotar para ficarmos de pé deixaram o filho do boticário com uma corcunda igual a do pai.

No ano seguinte as buscas de Sol diminuíram drasticamente, mas ainda era possível ouvir seus uivos noturnos de vez em quando. Voltamos a viver em terra firme, agora mais seguros, tivemos sua mãe, ela conheceu um rapaz na vila quando a levamos para lá adoentada, eles se apaixonaram e tiverem você aqui, na floresta. Infelizmente Sol um dia encontrou eu e seu avô e ele morreu atrasando-o para que eu fugisse.

Essa é a nossa história, criança, e o motivo de você ter nascida na floresta, não conhecer nenhuma pessoa e não poder ir ao vilarejo sob circunstância nenhuma. Agora volte para casa. A noite se aproxima e sua mãe já deve estar ficando preocupada”.

Voltei para casa assustada. Relatei a história toda para mamãe, pulando muitas coisas que ele já sabia.

— Oh, querida. Sinto tanto por você ter que carregar esse fardo, assim como nós. Em breve esse velho lobo irá falecer, e então teremos nossas vidas normais outra vez. Eu prometo que ele não passará dos 60 e que não irá atormentar tirar a vida da minha querida filha.

Agora sei que um fantasma que se chama Sol sofreu. Teve o coração partido. Tornou-se asqueroso, perambulando pela floresta arrancando tristes lamentos de seu companheiro de viagem e cantando canções assassinas. Ele virou um homem nojento e fétido, feio e delirante. Nunca mais cortou as unhas, e seguindo o exemplo das companheiras amareladas mexas de cabelo desgrenhado tocavam o tapete da floresta sempre que Sol se mexia. O fedor era tanto que as plantinhas guinchavam e explodiam em nuvenzinhas de pó, ou apenas tombavam para a frente e juntavam-se à trilha escura deixada pelo solitário lobisomem de meia idade.

Ao menos, é o que cantam os pássaros. Sempre planando sobre os tufos de cabelo de Sol são os únicos que escapam do cheiro estrangulador que empesteia o ambiente. Alguns emplumados desavisados aproximam-se demais das raízes das árvores e acabam por confundir o topo da cabeça do estranho com um ninho. No primeiro segundo em que tocam o solo áspero e grudento percebem o erro e tentam fugir, mas as unhas tornadas garras do homem agarram os rabos dos passarinhos pela ponta, e aí a segunda mão esmaga a cabecinha da criatura e a joga pelos dentes escancarados.

Desde que soube da verdade, passei a ter a impressão de que ouvia uma triste melodia sendo arrancada de um acordeão nas noites mais escuras. Deitei com medo, sonhei com a morte e acordei aterrorizada, por dias. Após muitas semanas de silêncio noturno voltei a ouvir o som. Estava mais triste do que de costume, e mais próximo que o habitual. Acordei sobressaltada, sentindo as notas vibrando no ar. Ofeguei e avistei a janela aberta, mas eu não o vi. E nem percebi as movimentações naquela noite.

Sol veio de longe e foi avançando para a janela. Conforme aproximava-se de mim o som da música aumentava cada vez mais, até que se dissipou de repente. A tensão das notas permaneceu no ar por tantos minutos que logo não sabia por quanto tempo fiquei acordada no meio da madrugada. Caí no sono novamente sem dar-me conta de que, a não mais de 30 metros, o vulto me observava sem piscar os olhos.

Acordei na manhã seguinte com um estalo metálico. A vela que eu havia acendido na noite anterior, perfurada por um prego que marcaria o horário de acordar, já se encontrava apenas em cera. Tratei de vestir uma roupa rapidamente.

Joguei os cabelos ruivos para trás, sob o capuz, e lavei o rosto. Calcei botas fofas e quentes, porque o dia amanhecera extremamente frio. Meu pai àquela hora já deveria ter saído para ceifar a lenha que nos esquentaria no inverno próximo. Minha mãe, coitada, estava deitada em seu quarto tossindo e revirando-se, muito doente.

Quando saí pela porta de meu quarto, ouvi sua voz me chamando fracamente. Fui ter com ela, e seu pedido me surpreendeu. Ela queria que eu fosse até a casa da vovó para lhe entregar doces e vinho, pois a doença a impedia de levantar-se e a velhice não deixava vovó vir até nós. Relutei, temendo por mim na floresta, caminhando sozinha, e temendo por minha mãe sozinha em casa. Quem sabe quando e para onde Sol iria retornar?

Beirando às lágrimas, agarrei-me à cesta e saí de casa, apertando a alça com tanta força que os nós de meus dedos começaram a ficar vermelhos. Segurei as gotinhas transparentes. Ninguém precisava vê-las.

A trilha para a floresta iniciava logo na porta de minha casa, densa e perigosa.  O sol estava nascendo, uma esfera vermelho-arroxeada enorme emitindo raios que deitavam sobre as copas das árvores, tornando-as ouro instantaneamente. Pássaros cantavam por todos os cantos, e perto de mim corria um gélido riacho onde todos os dias me banhava. Coloquei a cesta na mão esquerda, e com a direita desbravei a mata.

As folhas das árvores caíam constantemente e formavam pequenas pilhas aos meus pés. Os galhos tentavam me agarrar em abraços, mas eu os repelia. Caminhei por uma hora até as flores surgirem e árvores se espaçaram.

A meio caminho, já não havendo mais como voltar, ouvi alguns estalos. As folhas que cobriam o chão da floresta foram esmagadas. Galhos se quebraram, trazendo o som na minha direção.

Um cheiro azedo de sujeira tocou meu nariz com dedinhos ásperos. Meu coração foi a mil, batendo como uma bigorna. Vi o que me esperava do outro lado da mata.

O vulto voou para esconder-se na penumbra. Pressionei os olhos tentando enxergar, mas quase nenhuma luz atravessava as copas das árvores.

Comecei a ficar realmente com medo quando uma sinistra canção começou a ressoar. O vulto saiu de sua toca caminhando em minha direção sem cerimônias e vez por outra sendo iluminado por um raio de sol.

Aquele homem era só uma história. Eu não podia estar realmente o vendo. Totalmente imundo, com roupas esfarrapadas e parecendo não sentir frio algum, o indivíduo de olhos laranja faiscantes parou. Tinha 1,60 e um olhar feroz. Meu nariz dizia que ele não tomava banho a tanto tempo que seu fedor era insuportável.

Sol puxou o acordeão para a frente. Os olhos faiscantes me observavam como se eu fosse de ouro. Lembrei que vovó disse que eu era muito parecida com ela quando jovem, e aí pensei. Será que Sol estava imaginando que eu fosse ela? Ele sorriu escancaradamente com os dentes negros e cariados, parou, abaixou a cabeça por uns instantes e uma trilha formou-se em seu rosto por onde as lágrimas abriam caminho.

Ele começou a soluçar, fazendo o peito saltar descontroladamente. Pigarreou depois de incontáveis haustos e começou a murmurar. No início era baixo demais para ouvir, mas os sussurros tornaram-se berros descontrolados, gritos de dor!

Sol passou a língua pelos lábios como um réptil e dedilhou o acordeão, pondo-se a cantar.

"Eu acreditei, amei e vivi

Ouvi sua voz doce

A única que deveria me amar

Mas quando abri os olhos uma névoa os fechou

E era o vulto da morte te abraçando apaixonada

Então chorei e berrei

Pois um outro a tirou de mim

Mas em meu coração você brilha

Farei um sacrifício necessário

Mas não tema

Escolherei bem

E não deixarei que na morte se estrague

Sendo rápido no abate

E depois me dirás

Me dirás depois como reencontrar-te

Pois toda a sorte não foi capaz de nos colocar juntos

Se a vida nos separou

A morte irá mostrar quem realmente sou"

Sol era um velhote! Não dava para acreditar que ele realmente achasse que eu era a vovó eternamente nova. Ela deveria estar com a mesma idade que ele agora.

Com um uivo entrecortado aos soluços, Sol pulou de seu lugar e correu em minha direção. De pronto me joguei para o lado e disparei como uma flecha.

Larguei a cesta de doces no ar, voando tão rápida quanto o vento matinal. Saltei montes de terra e grama sem me importar com os galhos que abriam vincos em minha pele e esgarçavam o vestido novo. Não contei o tempo que tomei para percorrer os quilômetros faltantes até a casa da minha avó, nem me dei conta de que o sol já se punha e a lua cheia o substituía. Várias passadas adiante, quase no coração da floresta, onde residia minha avó, tive o rápido vislumbre de uma sombra enorme erguendo-se imponente ao meu lado. Sol, com pelos negros e emaranhados, exalava o cheiro forte de sangue seco e leite coalhado. Meu coração estatelou-se no peito com um aperto único e fatal. Ele havia se transformado em lobisomem, e se eu não conseguisse abrigo logo aquele seria meu fim!

Tropecei no nó de uma raiz e gritei. Quase imediatamente a porta da casa da vovó se escancarou. O lobo já se erguia sobre mim! Vovó deixou a soleira da porta e estacou diante dele. Apossando-se de um machado recostado ao lado de uma pilha de toras, armou-se com ele e caminhou em nossa direção. Das narinas e da boca apinhada de dentes negros e afiados do lobo saíam nuvenzinhas de vapor condensado.

Antes que vovó o acertasse, ele a viu. E ficou duplamente confuso, porque não havia se dado conta de que atacava a neta, e não a avó, seu alvo da vida toda. Depois de um longo uivo ele decidiu que teria que atacar a mais velha. Levantou-se nas batas de trás e aprumou as garras, preparando um golpe poderoso. Chutei a barriga dele antes que vovó fosse acertada e rolei para o lado. Vovó aproveitou a distração para arremessar seu machado bem na fera, mas ela era ágil e desviou da lâmina voadora. Enraivecido, o lobo mau avançou contra vovó e com apenas um golpe acertou-a com tanta força que ela voou floresta adentro.

Corri até o lobo, carregando o machado que eu havia recuperado. Ele saltou de seu lugar e correu procurando vovó. Eu fui atrás. Caminhei tanto que acabei me perdendo, mas encontrei a besta quando minhas esperanças já se esvaíam. Ele estava sobre uma vovó ensanguentada e sem vida.

Antes que ele pudesse me ver, juntei toda minha raiva e indignação e arremeti contra o dito cujo. Levantei o machado o mais alto que pude e o abaixei, decepando o lobo quando ele se virava para ver o que se passava. Sangue jorrou aos borbotões do pescoço, espirrando para todos os lados. O líquido escuro e pegajoso lavou minhas vestes e meu capuz. A besta tombou e sem vida tornou-se novamente homem. Lágrimas embaçaram meus olhos e eu já não via mais nada.

Corri às cegas pela floresta sem rumo, e por um acaso do destino minha estrada terminou na Toca dos Chapéus em meio a competição anual de chapéus.

Desmaiei diante dos olhares de todos e acordei dias depois de volta a casa. Mamãe sumiu de seu quarto, papai está triste e não quer falar da vovó. O perigo se foi com o lobo e agora posso visitar a vila esporadicamente, como minha mãe disse que aconteceria. Quando visito os habitantes da Toca dos Chapéus eles me reconhecem como a concorrente de última hora que venceu o concurso da Toca dos Chapéus com o Chapeuzinho Vermelho, o chapéu vermelho abstrato mais bonito que já havia visto, dissera o Chapeleiro Maluco. Além disso, agora sou amiga próxima dos três porquinhos e religiosamente, todo domingo, jogo uma partida de poker com eles. Como vocês podem ver, também, agora sou a nova contadora de histórias das noites de Queima de Chapéus.

Minha vida não é como eu imaginava, ela poderia ser melhor. Penso nisso toda noite ao deitar, mas ela é a minha vida, e essa é a minha história. Agora, impressione-me. Qual a ­sua?

Estudante de história, nerd, bookaholic, escritor, gamer, palestrante, publiquei uma trilogia chamada Seraf e os Artefatos Místicos. Agora vivo escrevendo palavras soltas por aí :)