Ninguém Pode Ser Todo Mundo

Ninguém pode ser Todo Mundo

por Gabriel Edgar

 

Tic tac tum tic tac tum... o coração bate,

um relógio de horas marcadas.

Correr, pular, jogar, bum! Desviar, mirar, ratátátá! Matar.

Andar, olhar, avaliar. Xingar. Menosprezar.

Caminhar, perceber. Um mendigo. Em sua mão, comida. À sua frente, um faminto. O que fazer? Ignorar.

Estudar, errar, fazer a prova. Ir mal. Olhar para o lado. Um colega. Nota 10. Iniciando... modo inveja.

Ignorância, medo, preconceito. Dor, morte, presunção. Quem nunca sentiu? Quem nunca quis mais? A maioria diria “Eu Não!” Os que em silêncio ficassem, então, seriam automaticamente julgados. Menosprezados, maltratados. Mas será que já parou para pensar que, apesar de tudo, você pode ser o inimigo que tanto odeia? Aquela craca imunda que corrói a sociedade pode não estar tão longe. Tic tac tic tac. O relógio bate, a vida flui. Vai e vem. O quê? Tudo é imaginação. Depende, então, da sua acepção. Certo? Errado? Descubra. A vida é um quebra-cabeça de peças infinitas. O único problema é que algumas sempre se perdem no meio do caminho. A qualquer momento, seu relógio pode parar. Não há pilhas, nem baterias, ou forma alguma de fazê-lo voltar a girar.

Pense, então.

Precisamos encontrar uma solução. Solução para a escuridão, para os erros. Mas não há. O que podemos fazer é apenas nos avaliar. O que fizemos? O que faremos? Uma peça, sempre faltando, impede de continuar. O bem e o mal, face a face, discutem uma opção. Mascarados estão, e então, quem é a solução?

Todo Mundo, envergando um terno branco ofuscante, encara Ninguém, em um insólito traje negro. Ninguém, por usa vez, brinca com a ponta quebrada de um lápis, sem dar atenção e nem mesmo fingir escutar. Não está nem aí para o que Todo Mundo diz. Eles eram velhos amigos, daqueles inseparáveis. Viviam, claro, em casas separadas. Quando a idade foi chegando, juntos escolheram um recanto para dividir, longe das famílias ou dos pais. Mas sabe aquela antiga historinha que as pessoas sempre dizem? “Viver cada um em seu canto é uma coisa, agora, quando junta... os problemas começam a surgir”.

Ninguém gosta de Todo Mundo, e Todo Mundo gosta de Ninguém. Sempre foi assim e sempre será, eles pensavam. Passou um dia, um mês, três meses... e como o velho ditado, os problemas vieram pululando de encontro a eles. Todo Mundo deixava a roupa jogada no chão, totalmente encardida e molhada do dia exaustivo. Ninguém lavava a louça, mas Todo Mundo comia e ao seu lado uma pilha ia crescendo. Ninguém era caridoso, gostava de ajudar os pobres, caminhava pelas ruas da cidade, comprava lanches e esbaldava os outros com o que tinha e com o que não tinha. Todo Mundo ignorava essas boas ações. Queria mesmo saber é de usar tudo para si. Todo Mundo é vaidoso. Todo Mundo é pobre. Todo Mundo é ignorante. Todo Mundo é presunçoso.

Ninguém é caridoso. Ninguém é carinhoso. Ninguém é rico, mas dá aos pobres. Ninguém se avalia como uma boa pessoa. Todo Mundo diz que Ninguém é bom.

Quem é você? Ninguém, ou Todo Mundo?

Acontece que apesar de tudo, certa vez Todo Mundo fez uma boa ação, comprando comida e roupas, indo a casas caídas e levando vida. Ninguém percebeu. Mas fora apenas uma vez, daquelas raras em que algo pula dentro de Todo Mundo querendo fazer algo pelos outros, e Ninguém lembra disso depois. Foi único. Não acontecerá outra vez, e apenas uma boa ação não irá apagar o que os outros pensam de Todo Mundo.

Tantas eram as diferenças entre eles, que certa vez imaginaram como seria se trocassem de papel. Todo Mundo seria Ninguém, e Ninguém, Todo Mundo. E assim ficou:

Todo Mundo levantou cedo, pôs as roupas e foi trabalhar. A rua então logo ficou movimentada, não sei por que, já que apenas Todo Mundo havia saído. Em casa, Ninguém acordou tarde. Havia uma sensação de vazio no ar... o dia andava muito estranho. Ao final, os papéis seriam os mesmos novamente. Por enquanto, Todo Mundo era obrigado a viver uma vida regrada. Ninguém fazia o que queria.

Todo Mundo chegou rápido ao trabalho, pegou o computador, ligou, uma rápida olhada nas redes sociais, e então se pôs a digitar. Passaram-se algumas horas, as ruas novamente vazias, Todo Mundo ia ficando cansado. Todo Mundo soltou um palavrão quando fez um erro, Todo Mundo sentiu uma pequena pontada de inveja ao ver como os outros eram mais belos. Como em outro ditado, para Todo Mundo a grama do vizinho sempre é mais verde. Ninguém nunca concorda com isso, é claro, sempre diz que está bem do jeito que está. Hoje, Ninguém fará nada, já que em outra vida, Todo Mundo é vagabundo, e Ninguém é reconhecido. Quando bate o ponto, Todo Mundo vai para casa, e Ninguém está deitado assistindo televisão. A diversão é um luxo que poucos podem se dar. Enquanto Todo Mundo trabalhava, Ninguém assistiu televisão o dia todo, Ninguém sujou a casa, Ninguém estourou o cartão, Ninguém roubou, Ninguém xingou, Ninguém fez nada.

Ahhh, como eu queria ter o poder de entrar nas histórias, e viver em um mundo como esse, onde Ninguém troca de lugar com Todo Mundo. Mas é muito bom que eu não possa, porque tempos mais tarde Todo Mundo gostou do que Ninguém fazia. Não se sentia mais tão inútil. Também, Ninguém adorou a vida de Todo Mundo.

Assim, Ninguém ficou cada vez pior, sedentário, triste, chegou um momento então, que a peça de seu quebra cabeça estava faltando. Não soube encontrar a próxima. Não tinha saída. Ninguém se matou. Todo Mundo continuou a vida, como se nada faltasse. Afinal, ninguém se foi, apenas Ninguém.

Todos já erraram na vida, e se não o fizeram, ainda farão. Ninguém morreu, se matou, se jogou, deu a vida ao léu, e Todo Mundo continuou. Espero, agora, que Todo Mundo saiba quem foi Ninguém, pois na vida, nenhuma pessoa que ser um Ninguém.

Todo Mundo erra, e nós relevamos. O que é o certo, e o que é o errado? Será que existe realmente um ponteiro para cada um? Não somos um meio termo, pois a vida sem erros, não é a vida.

Apenas, viva.

Estudante de história, nerd, bookaholic, escritor, gamer, palestrante, publiquei uma trilogia chamada Seraf e os Artefatos Místicos. Agora vivo escrevendo palavras soltas por aí :)